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| Foto: Weber Sian/A Cidade |
Aos 55 anos, João Gandini faz a ponte entre o poder judiciário e o poder executivo, ao entrar na disputa pelo cargo de prefeito de Ribeirão Preto, depois de uma carreira de 28 anos como juiz da Vara Federal.
Hélio Pellissari - Um grande problema da educação em Ribeirão Preto continua sendo a falta de vagas em creches. O que o senhor pretende fazer?
João Gandini - Na verdade o grande problema da educação ainda não é a creche. A creche é somente um dos pontos. O grande problema é a qualidade da educação. Você tem vagas nas escolas. O estado de São Paulo tem um padrão quase alemão, tem vaga para todo mundo, pelo menos no ensino fundamental, mas a qualidade piorou muito ao longo dos anos. Agora parece que vem reagindo, o governo federal fez um plano, os estados vêm se adaptando, os municípios também, mais ainda estamos muito longe de uma educação de qualidade, que todo mundo sabe.
Hélio - A rede municipal também está nesta situação?
Gandini - Também. A rede municipal está melhor do que o Estado. A educação no Estado de São Paulo está um horror. A do município é um pouco melhor, mas também é ruim, em termos de qualidade. Em termos de quantidade nós temos o problema das creches. Os dados que eu tenho falam em 15 mil vagas em déficit, eu conheço muito bem a periferia e na periferia tem muitas mulheres que trabalham fora e têm que deixar o emprego por que não têm onde deixar as crianças. Cabe ao poder público a responsabilidade e condições de dar educação para uma criança de um ano, dois anos. E esta atividade é da Prefeitura. Neste primeiro momento a ideia é cobrir as vagas de todas estas crianças que estão fora. A ideia é cobrir todas as crianças até entrar na escola.
Hélio - Dá para zerar este déficit em quatro anos?
Gandini - Acho que sim. Serrana, por exemplo que é uma cidade pequena com 35, 40 mil habitantes fez mil vagas em quatro anos. Ribeirão que é uma cidade muito maior fez pouco mais do que isto, a gente não tem dados oficiais da prefeitura ainda, pode ser que tenha feito um pouco mais do que isto, em uma cidade com 600 mil habitantes. É possível fazer mais. É claro que creche é muito caro, cuidar de uma criança de um ano ou dois é muito mais caro do que dar aula para uma criança de 7, 8 anos, então o investimento tem que ser maior. Mas você tem que priorizar. Infelizmente algumas cidades não acessaram estes recursos porque não fizeram os projetos a tempo. Eu pretendo, já na transição, fazer todos os projetos para que no momento adequado você protocole. Enquanto isto você faz as parcerias, para, se não zerar imediatamente o número de vagas, o que eu acho praticamente impossível, pelo menos minimizar o problema.
Hélio - O que fazer para melhorar a questão da qualidade da educação na cidade?
Gandini - O problema da qualidade na educação está ligado, primeiro ao currículo, que é meio maluco, a cada hora você vê um currículo sendo colocado, a cada hora você vê, colocam mais uma matéria e o currículo básico fica de lado. Segundo, os professores estão há muito tempo sem treinamento, sem profissionalização, por mais que você seja um bom profissional, seja um médico, um advogado, um professor, você tem que estar sempre se preparando, sendo treinado. Outro fator fundamental é aproximar a escola da família. A ideia é investir profundamente no treinamento dos professores e na aproximação com as escolas. Até porque você vai nas escolas de Ribeirão Preto e elas fecham no final de semana, é uma ou outra que fica aberta. Isto acontece por falta de estrutura, falta de gente, ora, é possível fazer convênio com a associação de pais, com associação de moradores para utilizar a escola. Outra coisa que eu estou pensando e é possível começar, é tentar aumentar o tempo de permanência da criança na escola. Eu acho que não tem sentido a criança ficar só quatro horas na escola, tempo bruto, líquido três horas. Você não vai fazer revolução qualitativa nunca desse jeito. Você tem que ir aumentando em uma hora, duas horas, até chegar ao ensino integral. Eu não concebo outro ensino que não seja integral.
Hélio - Em Ribeirão Preto foi discutido e aprovado um plano Municipal de Educação e nunca foi implementado. O senhor conhece este plano, pretende implantá-lo?
Gandini - Eu reli o plano esta semana. Ele tem muita coisa boa da qualificação de professores, da questão da inclusão, ele foi discutido durante mais de dois anos. Eu acho que a sociedade precisa ser mais ouvida. Tudo o que o plano propõe é viável. Dá para fazer. Claro que não dá para fazer tudo de uma vez.
Hélio - Como resolver a questão da saúde?
Gandini - Nós temos 703 médicos no município, 3.911 funcionários e temos mais de R$ 360 milhões este ano, e o dinheiro não deu, e os funcionários não foram suficientes, e os médicos não foram suficientes, e o dinheiro não foi suficiente. Eu estou convencidíssimo que o problema é de gestão e não de falta de recursos materiais e humanos. Falta gestão. Em torno de 30% das pessoas que marcam consulta, não comparecem. O médico marca 12 consultas, aparecem 9, três se perderam. Será que não há possibilidade de no dia anterior confirmar com a pessoa se ela vai? Hoje o normal é se gastar com o setor terciário, com os hospitais, é gastar 15% do orçamento, hoje nós estamos gastando 40%. É muito. E por que se gasta tanto? Porque a atenção básica não funciona. Ele vai para a UPA ele vai para a UBDS, ora, tem que ter um filtro. Primeiro ele vai na unidade da Família, na UBS, ali tem ginecologista, tem pediatra e tem clínico geral. Ele normalmente vai atender as coisas corriqueiras. Os casos mais graves devem ir para a UBDS. Ai é a exceção, não a regra. Mas como a UBS é está muito mal posta, o paciente não vai para ela, ele vai direto para a UBDS, aí a UBDS fica lotada. É uma questão de gestão. Tem que inverter esta lógica. Se você atender bem as pessoas no primeiro momento que ela precisa, você vai atender ela no segundo momento como exceção e não como regra e aí o custo é menor. Se o custo é menor sobram mais recursos para investir. Você ataca a causa e não o efeito.
Hélio - A prefeitura municipalizou o Hospital Santa Lydia, para desafogar a rede. Isto está funcionando?
Gandini - Não. A questão não é o hospital ser municipal ou deixar de ser. O que acontece que você tem uma opção de marketing e uma opção de conteúdo. Esta administração fez opção pelo marketing. Você tinha opção por três UPAs em Ribeirão Preto sequenciais. Uma na zona leste, uma região da Vila Virgínia e outra na região do Quintino. Por que fez na 13 de Maio, se do outro lado da rodovia tem 100 mil pessoas? Porque a pessoa tem que sair de lá, com um trânsito horroroso para vir para o Castelo. A UPA na 13 de Maio é visível. Agora se fosse lá na Vila Abranches, no Ribeirão Verde, não seria. A administração é uma administração de marketing, o ovo todo pintadinho que por dentro está choco.
Hélio - O que pode ser feito para acabar com os 40 núcleos de favela?
Gandini - Dá para diminuir. Quando eu comecei havia 34 núcleos. Foram feitos projetos para onze, que foram efetivados e estão na fase final. Eu quero fazer até um parêntese aqui, se você pegar todos os projetos de desfavelamento, todos são anteriores a este governo. Só tem dois projetos deste governo. Os projetos foram desenvolvidos em 2005, 2006, 2007 e 2008. As primeiras 29 casas do projeto do aeroporto, foram inauguradas em dezembro de 2008, pelo prefeito Gasparini. Ou seja o projeto é anterior, o financiamento é anterior e a execução é posterior. Um foi o projeto das Mangueiras, o processo mais antigo em andamento. R$ 16 milhões foram liberados para metade da favela, não sai esta licitação, não começa a obra, e já foram 4 anos e acabou o governo. Quando começou o governo a parceria do Moradia Legal foi para a favela das Mangueiras, foi feito o projeto e nada. A outra foi a favela de Bonfim, que foi feito neste governo, pelo Moradia Legal, com técnicos da prefeitura, sem um centavo da prefeitura. Todo o dinheiro é privado, não tem dinheiro público. Se as pessoas estão vindo para a cidade, precisamos criar uma política de imigração. Tem que ter um estudo. A partir deste estudo você cria uma política de acolhimento. Que eles venham, são bem-vindos. Mas isto precisa ser feito de maneira planejada, de maneira pensada, onde estas pessoas vão morar? Não têm onde morar! Então precisamos aumentar o projeto de lotes urbanizados, de mutirões, aumentar a oferta de casas pelo "Minha Casa, Minha Vida", pelo CDHU e até casas feitas em áreas da Prefeitura.
Hélio - O senhor acha que Ribeirão Preto já comporta uma secretaria da Habitação?
Gandini - Esta é uma das minhas propostas. O que eu vou fazer é diferente, não existe no Brasil e Ribeirão Preto vai ser a primeira cidade a ter: é a secretaria da Cidade, que abrange várias áreas como habitação, planejamento e outras áreas.
Hélio - A nova licitação para o transporte público vai resolver o problema?
Gandini - Temos que pegar o histórico desta licitação. Ela surgiu de um processo, em que eu era o juiz. Eu fiz um acordo com o promotor, Transerp, Prefeitura e as empresas para fazer a licitação. Neste acordo nós chegamos à conclusão que precisava de uma indenização à prefeitura pelo uso. Chegou-se a um termo de R$ 12 milhões. Que foi pago não com dinheiro, mas com investimentos no serviço. Exigimos que fosse feito um estudo de origem e destino e um estudo de mobilidade urbana. Você ouviu falar do estudo, foi amplamente discutido. Teve um esforço de anos que pode resultar na melhora ou não do sistema. Porque não houve participação da população. O transporte coletivo não pode concorrer com outro, os modais não podem competir entre si.
Fonte: Jornal A Cidade

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